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Doença rara · Atualizado em 2026

Canaquinumabe (Ilaris) para CAPS: as três formas nomeadas na bula e a negativa do plano

Por Henrique Machado, OAB/RJ 252.553 | Direito da Saúde Suplementar | Leitura de 11 minutos | Publicado em

A bula brasileira do canaquinumabe indica o medicamento para as síndromes periódicas associadas à criopirina e nomeia as três formas uma a uma. Essa escrita, que parece detalhe, decide pedidos: quando o relatório médico não usa o nome exato da forma, a operadora sustenta uso fora de bula e abre uma discussão que não precisava existir. Este artigo mostra o que a bula diz, o que a decisão de não incorporação ao SUS realmente significa, e por que a defesa mais forte da operadora não é negar o tratamento.

CAPS não é uma doença, são três

A sigla CAPS designa as síndromes periódicas associadas à criopirina, um grupo de doenças autoinflamatórias raras causadas por alteração no gene que controla a produção da criopirina. O ponto que interessa juridicamente é que a bula brasileira do canaquinumabe não trata o grupo em bloco: ela nomeia as três formas, uma a uma.

As três formas nomeadas na bula brasileira
FormaComo aparece escrita
FCAS / FCUSíndrome Autoinflamatória Familiar desencadeada pelo Frio, ou Urticária Familiar ao Frio
MWSSíndrome de Muckle-Wells
NOMID / CINCADoença Inflamatória Multissistêmica de Início Neonatal, ou síndrome crônico-infantil-neurológica-cutâneo-articular

Por que a distinção decide pedidos. A operadora costuma comparar o diagnóstico do relatório com o texto da bula. Se o relatório diz apenas "síndrome autoinflamatória" ou "doença autoinflamatória rara", sem nomear a forma, ela sustenta que o uso é fora de bula, e ganha uma discussão que não precisava existir. O relatório deve trazer o nome exato da forma, e de preferência também a sigla, porque é assim que a auditoria procura.

Bula do profissional de saúde, Novartis Biociências S.A. Ilaris (canaquinumabe), seção Indicações

"Ilaris é um bloqueador de interleucina-1 beta indicado para o tratamento das seguintes Síndromes Febris Periódicas autoinflamatórias: Síndromes Periódicas Associadas à Criopirina (CAPS), em adultos e crianças com 2 anos ou mais, incluindo Síndrome Autoinflamatória Familiar desencadeada pelo Frio (FCAS) / Urticária Familiar ao Frio (FCU), Síndrome de Muckle-Wells (MWS) e Doença Inflamatória Multissistêmica de Início Neonatal (NOMID) / Síndrome crônico-infantil-neurológica-cutâneo-articular (CINCA); Síndrome Periódica Associada ao receptor do Fator de Necrose Tumoral (TRAPS) em adultos e crianças com 2 anos ou mais; Síndrome da Hiperimunoglobulinemia D (HIDS) / Deficiência da Mevalonato Quinase (MKD) em adultos e crianças com 2 anos ou mais; Febre Familiar do Mediterrâneo em adultos e crianças com 2 anos ou mais, nos quais a colchicina é contraindicada, não é tolerada, ou não apresenta uma resposta adequada, apesar da maior dose tolerável de colchicina. (...) Ilaris também é indicado para o tratamento de: Doença de Still: Ilaris é indicado para o tratamento da doença de Still ativa, incluindo a Doença de Still do Adulto (DSA) e Artrite Idiopática Juvenil Sistêmica (AIJS) em pacientes com 2 anos ou mais, que não tenham respondido adequadamente à terapia anterior com medicamentos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e corticosteroides sistêmicos."

Fonte: bula do profissional de saúde do Ilaris, publicada em domínio da Novartis Brasil. Ressalva declarada: o Bulário Eletrônico da ANVISA não pôde ser aberto na preparação deste artigo, e a versão transcrita é a da apresentação em pó liofilizado. Antes de citar a bula em petição, baixe a bula vigente da apresentação prescrita no bulário oficial.

A indicação para CAPS vale para adultos e crianças com 2 anos ou mais. Essa faixa é verificada pela auditoria, e o relatório precisa registrar a idade do paciente.

O canaquinumabe não está no rol, e isso diz menos do que parece

A negativa quase sempre começa pela mesma frase: o medicamento não consta do rol da ANS. É verdade, e é irrelevante do jeito que a operadora usa.

65 A diretriz dos imunobiológicos é escrita por doençaA diretriz de utilização nº 65 organiza a terapia imunobiológica em subitens por condição clínica, e não nomeia moléculas, com uma única exceção conhecida, que é o rituximabe no subitem de vasculite

Ou seja: a ausência do nome canaquinumabe no rol não significa exclusão do canaquinumabe, porque o rol praticamente não nomeia princípios ativos nesse ponto. Nenhum dos imunobiológicos efetivamente autorizados todos os dias pelas operadoras aparece pelo nome ali. Se a ausência do nome bastasse para negar, nenhum deles seria coberto.

O que verificamos, e até onde. Buscamos as palavras canaquinumabe, canakinumabe e Ilaris no texto integral do Anexo I da RN 465/2021 publicado pela ANS, na versão consolidada até a RN 571/2023, e no Anexo II das diretrizes de utilização. Não constam. A versão consolidada mais recente do Anexo I não pôde ser aberta na preparação deste artigo. Antes de afirmar em juízo que o medicamento não figura no rol vigente, confira a versão em vigor no portal da agência.

A decisão de 2013, que a operadora junta na contestação

Em CAPS existe um documento específico que praticamente sempre aparece na defesa da operadora, e é melhor conhecê-lo antes de escrever a inicial do que descobri-lo depois.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS Relatório nº 76, de outubro de 2013 · Portaria nº 49, de 9 de outubro de 2013

"Fica não incorporado o canaquinumabe para o tratamento da síndrome periódica associada à criopirina - CAPS no âmbito no Sistema Único de Saúde (SUS)."

Fonte: relatório de recomendação publicado pela CONITEC, lido na íntegra. O relatório registra que os estudos apresentados foram considerados insuficientes para demonstrar prevenção de complicações de longo prazo, e que as comparações disponíveis eram contra placebo ou contra ausência de tratamento, e não contra as alternativas então oferecidas pelo SUS.

A não incorporação ao SUS é um fato de mão dupla, e a operadora só conta um lado. Contra o poder público, ela pesa. Contra a operadora de plano de saúde, ela não vincula: a saúde suplementar tem regime próprio, definido pela Lei 9.656/1998 e pelas resoluções da ANS, e a decisão de não incorporar ao sistema público não é decisão sobre cobertura contratual.

Mais do que isso, ela pode ser usada a favor do paciente. Se o medicamento não foi incorporado ao SUS e não há dispensação pública, então não existe a alternativa terapêutica equivalente e acessível que a operadora costuma invocar. O mesmo documento que ela junta para dizer que o tratamento não é consagrado prova que o paciente não tem para onde ir.

E há um detalhe temporal que costuma passar em branco. A recomendação é de 2013. A razão declarada na época foi a insuficiência dos estudos então disponíveis e a ausência de comparação com as alternativas oferecidas pelo sistema público. Uma decisão administrativa fundada no estado da evidência de treze anos atrás não descreve o estado da evidência hoje, e isso é argumentável de forma objetiva, sem precisar atacar a decisão em si.

Existe outra molécula para a mesma doença, e isso é o campo da disputa

O canaquinumabe não é o único bloqueador de interleucina-1 usado em CAPS. A anacinra também é, e a operadora conhece essa informação tão bem quanto o médico. Daí vem a defesa mais consistente que ela tem: não a negativa do tratamento, mas a substituição da molécula.

O que separa um pedido que resiste de um que não resiste
SituaçãoComo a operadora reage
Relatório pede canaquinumabe sem dizer por que não a outra molécula Oferece a alternativa e sustenta que cumpriu a obrigação
Relatório registra tentativa anterior, com dose, duração e desfecho, ou contraindicação documentada A alternativa deixa de ser equivalente no caso concreto, que é exatamente o elo reconhecido pelos tribunais
Relatório invoca intervalo de aplicação e adesão Argumento útil, mas sozinho é frágil, porque conveniência não é o critério

Veja neste outro artigo: o mesmo pedido pela outra molécula, a anacinra, com o que muda na argumentação

Sobre o intervalo entre as aplicações. A bula profissional registra, para CAPS, aplicação subcutânea a cada oito semanas, com dose fixa ou por peso a depender do paciente. Registramos o dado porque ele aparece nas discussões sobre adesão, mas ele foi lido em forma condensada e não em transcrição literal. Antes de usar posologia em petição, extraia o trecho da bula vigente da apresentação prescrita.

A segunda onda da negativa, e a que mais derruba liminar. Como o canaquinumabe é aplicado por via subcutânea, a operadora costuma sustentar, depois de perder a discussão sobre o rol, que se trata de medicamento de uso domiciliar, excluído pelo art. 10, inciso VI, da Lei 9.656/1998. É a alegação mais frequente e a mais respondível, desde que o pedido tenha sido escrito antecipando-a. O tratamento completo desse ponto, com o que precisa constar do relatório e do pedido, está no artigo principal deste grupo.

Veja neste outro artigo: o artigo principal do canaquinumabe, com o tratamento completo da alegação de uso domiciliar e os cinco requisitos da ADI 7.265

Os outros artigos deste grupo

Um artigo para cada doença tratada pelo canaquinumabe
ArtigoQuando ir para ele
Canaquinumabe para CAPS Síndromes periódicas associadas à criopirina: FCAS, Muckle-Wells e NOMID/CINCA
Canaquinumabe para doença de Still Doença de Still do adulto e artrite idiopática juvenil sistêmica, a única com porta de entrada em diretriz
Canaquinumabe para febre familiar do Mediterrâneo Quando a colchicina falha, não é tolerada ou é contraindicada
Canaquinumabe para TRAPS Síndrome associada ao receptor do fator de necrose tumoral, com acórdão específico
Canaquinumabe para HIDS e deficiência de mevalonato quinase A mais rara das indicações, e a de argumento mais limpo
Canaquinumabe para gota A única deste grupo que no Brasil não está em bula, e por isso muda de regime
Canaquinumabe ou anacinra: quem escolhe Quando a operadora aceita tratar mas quer impor a outra molécula

Para o médico assistente

O canaquinumabe é negado em duas ondas, e as duas se respondem no relatório, antes de qualquer discussão judicial. A primeira ataca a indicação, a segunda a via de aplicação.

O que o relatório precisa endereçar, e por quê
ElementoPor que a norma ou a prática o exige
A doença pelo nome exato da bula, e não pelo nome genérico do grupoA bula brasileira nomeia cada síndrome separadamente, e a correspondência literal entre o diagnóstico e o texto da indicação é o que afasta a alegação de uso fora de bula
A idade do pacienteTodas as indicações do canaquinumabe na bula brasileira exigem 2 anos ou mais, e a operadora verifica isso
O que já foi tentado antes, com dose, duração e resultadoÉ o que responde à alegação de existência de alternativa terapêutica equivalente, que é o elo mais atacado
Intolerância ou contraindicação a alternativa, com data e eventoFecha a alternativa por segurança e não apenas por eficácia, o que é mais difícil de rebater
Consequência clínica esperada da demora, de forma concretaÉ o que sustenta a urgência, e a formulação genérica de risco costuma ser insuficiente
Por que a aplicação exige acompanhamento e não é autoadministração de rotinaÉ o que antecipa a alegação de medicamento de uso domiciliar, que costuma ser a segunda linha de defesa

Uma condição que vem antes de todas as outras. O relatório precisa refletir o que efetivamente ocorreu com aquele paciente. Nenhum item deste texto deve ser incluído em um laudo se não for clinicamente verdadeiro. O que está descrito aqui é o que a norma exige que o documento enderece, e não o que ele deva concluir. Documento que afirma o que não aconteceu não ajuda o paciente: expõe o médico e compromete o caso.

Para o médico assistente: veja também o que o relatório médico precisa conter para que a negativa seja analisada, com o roteiro por tipo de pedido.

Preclusão da prova documental. A operadora tem em seu poder o parecer da sua auditoria médica, o protocolo interno que aplicou, o registro da solicitação com data e o histórico de autorizações do beneficiário. Se contesta alegando ausência de indicação, existência de alternativa terapêutica ou caráter domiciliar do tratamento, e não junta esses documentos, que lhe seriam favoráveis se confirmassem o alegado, opera-se a preclusão da prova documental. O momento de produzir prova documental preexistente é a contestação, na forma do art. 434 do Código de Processo Civil, e não a fase seguinte.

Perguntas frequentes

O canaquinumabe é aprovado no Brasil para CAPS?

Sim. A bula brasileira do Ilaris indica o canaquinumabe para as síndromes periódicas associadas à criopirina em adultos e crianças com 2 anos ou mais, e nomeia expressamente as três formas: FCAS, também chamada de urticária familiar ao frio, síndrome de Muckle-Wells e NOMID, também chamada de CINCA.

O plano pode negar porque o medicamento não está no rol da ANS?

A ausência do nome no rol não decide a questão. A diretriz que organiza a terapia imunobiológica é escrita por doença e praticamente não nomeia moléculas, de modo que nenhum dos imunobiológicos autorizados rotineiramente aparece ali pelo nome. Além disso, a Lei 14.454/2022 estabeleceu critérios de cobertura para o que está fora do rol.

A CONITEC negou o canaquinumabe para CAPS. Isso vale contra o plano?

Não vincula a operadora. A não incorporação, decidida em 2013, é decisão sobre o Sistema Único de Saúde, e a saúde suplementar tem regime próprio. Na prática, ela pode até favorecer o beneficiário, porque prova que não existe dispensação pública do medicamento e, portanto, que não há a alternativa acessível que a operadora costuma alegar.

O plano pode trocar o canaquinumabe pela anacinra?

É a defesa mais forte que a operadora tem, e ela só cai com documento. Se o relatório registra tentativa anterior com a outra molécula, com dose, duração e desfecho, ou registra contraindicação ou intolerância com data, a alternativa deixa de ser equivalente naquele paciente. Sem esse registro, a substituição costuma ser aceita.

O plano pode alegar que é medicamento de uso domiciliar?

Alega com frequência, porque a via é subcutânea. É a segunda onda da negativa, e ela se responde no próprio relatório médico, com o registro de que a aplicação exige acompanhamento e monitoramento, e não é autoadministração de rotina. O tratamento completo desse ponto está no artigo principal do canaquinumabe.

Em resumo

A bula brasileira do canaquinumabe indica o medicamento para as síndromes periódicas associadas à criopirina, nomeando as três formas: FCAS, Muckle-Wells e NOMID/CINCA, em pacientes com 2 anos ou mais. A ausência do nome no rol da ANS diz pouco, porque a diretriz dos imunobiológicos é escrita por doença e não nomeia moléculas. A defesa mais séria da operadora não é a negativa do tratamento, é a substituição pela outra molécula, e ela só cai com histórico documentado. E a decisão de não incorporação ao SUS, de 2013, não vincula a saúde suplementar e, bem manejada, prova a inexistência de alternativa acessível.

Henrique Machado Advogado · OAB/RJ 252.553

Atua em Direito da Saúde Suplementar, com foco em reajustes de planos de saúde, cobertura de tratamentos e manutenção contratual, em B&M Advogados, Boechat e Machado Advogados, Niterói, Rio de Janeiro.

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Equipe de Direito da Saúde Suplementar do escritório: Henrique Machado, advogado, OAB/RJ 252.553; Paulo Henrique Machado, advogado, OAB/RJ 58.450; Victor Boechat Rosa e Silva, advogado, OAB/RJ 206.210.

Conteúdo informativo, publicado em 2026. Não constitui orientação médica e não substitui a análise do contrato, do relatório médico e dos documentos do caso concreto. Fontes normativas e técnicas: Lei 9.656/1998; Lei 14.454/2022; RN ANS 465/2021, Anexos I e II, Diretriz de Utilização nº 65; bula do profissional de saúde do Ilaris (canaquinumabe), Novartis Biociências S.A.; CONITEC, Relatório nº 76, de outubro de 2013, e Portaria nº 49, de 09/10/2013; Código de Processo Civil, art. 434.