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Neuronavegação e plano de saúde: a técnica que a norma cita pelo nome para excluir

Por Henrique Machado, OAB/RJ 252.553 | Direito da Saúde Suplementar | Leitura de 10 minutos | Publicado em

A craniotomia pode estar coberta, o tumor pode estar coberto, a biópsia pode estar coberta, e a operadora ainda assim recusar a neuronavegação. Não é arbitrariedade: o art. 12 da RN 465/2021 cita a neuronavegação pelo nome e condiciona a cobertura à presença dela no Anexo I, onde ela não está. E há um agravante que muda a estratégia inteira: a ANS já analisou duas propostas de incorporação e recusou as duas.

A técnica está citada na norma, e é por isso que a negativa existe

A neuronavegação é um sistema de navegação intraoperatória que orienta o cirurgião em tempo real dentro do crânio. E é uma das seis tecnologias que a norma do rol cita pelo nome.

Agência Nacional de Saúde Suplementar RN 465/2021, art. 12

"Art. 12. Os procedimentos realizados por laser, radiofrequência, robótica, neuronavegação ou outro sistema de navegação, escopias e técnicas minimamente invasivas somente terão cobertura assegurada quando assim especificados no Anexo I.
Parágrafo único. Todas as escopias listadas nos Anexos têm igualmente assegurada a cobertura com dispositivos ópticos ou de vídeo para captação das imagens."

Fonte: texto da RN 465/2021 conforme publicado no Diário Oficial da União.

Leia com atenção o que esse artigo faz. Ele trata a técnica como objeto próprio de incorporação, separada da doença e do procedimento. E cita seis delas pelo nome: laser, radiofrequência, robótica, neuronavegação ou outro sistema de navegação, escopias e técnicas minimamente invasivas.

A consequência é contraintuitiva e explica quase todas as negativas deste grupo. A cirurgia pode estar coberta, a doença pode ser coberta, e ainda assim a operadora recusar, porque o que ela nega não é o procedimento: é a tecnologia empregada para realizá-lo. E o art. 12 dá base normativa para essa recusa quando a técnica não está nomeada no Anexo I.

Ou seja: a craniotomia pode estar coberta, o tumor pode estar coberto, a biópsia pode estar coberta, e a operadora ainda assim recusar a neuronavegação, porque a norma condiciona a cobertura da técnica à sua presença nominal no Anexo I.

A ANS diz isso expressamente

Agência Nacional de Saúde Suplementar Parecer Técnico nº 32/GEAS/GGRAS/DIPRO/2018 Publicado em 02/01/2018, sob a norma do rol então vigente, cujo art. 12 tem redação equivalente à do art. 12 da RN 465/2021

"O procedimento NEUROCIRURGIA GUIADA POR NEURONAVEGADOR não se encontra listado no Anexo I (...). Portanto, o procedimento em tela não possui cobertura em caráter obrigatório."

Fonte: parecer técnico oficial publicado no portal da ANS.

E há mais: a incorporação foi analisada e recusada duas vezes

Este é o ponto que diferencia a neuronavegação de outros pedidos fora do rol, e que precisa ser conhecido antes de peticionar. Não se trata apenas de ausência: houve análise e decisão expressa de não incorporar, em duas propostas distintas, no ciclo de atualização de 2019 e 2020.

As duas propostas analisadas e recusadas
PropostaResultado
Neuronavegação aplicada à biópsia de encéfalo Recomendação de não incorporar
Neuronavegação aplicada ao tratamento cirúrgico de tumor intracraniano "Não recomendar a incorporação do procedimento Neuronavegação, aplicada ao tratamento cirúrgico de tumor intracraniano, no Rol"

Nos dois resumos executivos, a ANS registra que o rol contempla as cirurgias de tumor intracraniano por técnicas convencionais, sem a neuronavegação associada, e menciona como procedimentos já listados a implantação de halo para radiocirurgia e a localização estereotáxica de lesões intracranianas com remoção.

Ressalva de fonte. Os nomes dos procedimentos correlatos acima foram lidos nos resumos executivos da ANS, e não no Anexo I, que não pôde ser aberto integralmente na preparação deste texto. Antes de citar o nome exato em petição, o termo deve ser conferido no Anexo I vigente. Também não verificamos se houve incorporação posterior por norma editada depois daquele ciclo.

Como isso muda a estratégia

Diante de uma decisão expressa de não incorporação, três caminhos são inúteis e um é produtivo.

O que não funciona, e o que funciona
AbordagemResultado esperado
Sustentar que o rol é exemplificativo Não enfrenta o problema. A discussão não é a taxatividade, é a decisão administrativa específica
Ignorar a decisão de não incorporação A operadora vai juntá-la na contestação e o pedido chega ao juiz parecendo mal instruído
Afirmar que a técnica é superior em abstrato Superioridade genérica foi exatamente o que a ANS não considerou suficiente
Enfrentar o fundamento da recusa administrativa e demonstrar por que não se aplica àquele paciente É o único caminho compatível com as condições examinadas pelo STF na ADI 7.265

Na prática, isso significa que o relatório médico precisa ir além da indicação. Precisa dizer o que, na anatomia daquele paciente, torna a técnica convencional insuficiente: proximidade de área eloquente, profundidade ou tamanho da lesão, cirurgia prévia com alteração de referências anatômicas, risco funcional específico.

Veja neste outro artigo: o mesmo raciocínio aplicado à robótica, incluindo por que o comparador relevante nem sempre é a cirurgia aberta

A decisão de não incorporar, e como enfrentá-la

Aqui está o ponto mais duro deste cluster, e seria desonesto escondê-lo. Entre as condições que o Supremo examinou na ADI 7.265 para a cobertura fora do rol está a inexistência de negativa expressa da ANS quanto à incorporação.

E, em vários dos procedimentos deste grupo, essa negativa expressa existe. A ANS analisou a proposta de incorporação e recomendou não incorporar. Isso não encerra o caso, mas muda-o de lugar: o pedido deixa de ser apenas demonstração de eficácia e passa a exigir que se demonstre por que a situação concreta não está abrangida pela razão que fundamentou aquela recusa.

Como isso muda a redação da inicial. Ignorar a decisão de não incorporação é o pior caminho, porque a operadora vai juntá-la na contestação e o pedido chega ao juiz parecendo mal instruído. O caminho é enfrentá-la: identificar o fundamento da recusa administrativa, normalmente ausência de evidência suficiente à época ou existência de comparador consolidado, e demonstrar por que ele não se aplica àquele paciente.

Veja neste outro artigo: o quadro completo das negativas de técnica e material, com o art. 12 da RN 465/2021, a regra das três marcas e o que mudou em julho de 2025

Para o médico assistente

Neste grupo de casos a negativa quase nunca é da cirurgia. É da técnica ou do material. Por isso o relatório precisa sustentar escolhas que, em outros pedidos, seriam pressupostas.

O que o relatório precisa endereçar, e por quê
ElementoPor que a norma ou a prática o exige
Qual é a técnica empregada e por que ela, para este pacienteO art. 12 da RN 465/2021 trata a técnica como objeto próprio de cobertura, de modo que a escolha precisa de fundamento próprio
Por que a técnica convencional não atende neste casoÉ a alternativa que a operadora vai oferecer, e a resposta precisa ser clínica e individualizada
Características do material, com pelo menos três marcas quando disponíveisÉ o que a RN 424/2017 e a Resolução CFM 2.318/2022 estabelecem, e a indicação de marca única enfraquece o pedido
Se o material é implantável e exige cirurgia para colocação ou remoçãoÉ o critério que separa o material coberto do excluído pelo art. 10, VII, da Lei 9.656/1998
Consequência clínica esperada da demora ou da técnica alternativaÉ o que sustenta o pedido de urgência e o que dimensiona o risco da substituição imposta

Uma condição que vem antes de todas as outras. O relatório precisa refletir o que efetivamente ocorreu com aquele paciente. Nenhum item deste texto deve ser incluído em um laudo se não for clinicamente verdadeiro. O que está descrito aqui é o que a norma exige que o documento enderece, e não o que ele deva concluir. Documento que afirma o que não aconteceu não ajuda o paciente: expõe o médico e compromete o caso.

Para o médico assistente: veja também o que o relatório médico precisa conter para que a negativa seja analisada, com o roteiro por tipo de pedido.

Preclusão da prova documental. A operadora detém o parecer da sua auditoria médica, o protocolo interno aplicado, o registro da solicitação e a data de cada movimentação. Se contesta alegando ausência de indicação técnica ou existência de alternativa adequada e não junta esses documentos, que estão em seu poder e lhe seriam favoráveis se confirmassem o alegado, opera-se a preclusão da prova documental. O momento de juntar documento preexistente é a contestação, e não a fase seguinte.

Perguntas frequentes

O plano é obrigado a cobrir a neuronavegação?

Não em caráter obrigatório pela via administrativa. A ANS afirma, em parecer técnico oficial, que a neurocirurgia guiada por neuronavegador não está listada no Anexo I. E o art. 12 da RN 465/2021 estabelece que procedimentos realizados por neuronavegação ou outro sistema de navegação só têm cobertura assegurada quando assim especificados nesse anexo.

Mas a cirurgia em si está coberta. Isso não basta?

Não, e é justamente essa a particularidade do art. 12. A norma trata a técnica como objeto próprio de incorporação, separado do procedimento. A craniotomia pode estar coberta e a tecnologia de navegação, não.

A ANS já analisou a incorporação?

Sim, e recusou duas propostas no ciclo de 2019 e 2020: neuronavegação aplicada à biópsia de encéfalo e neuronavegação aplicada ao tratamento cirúrgico de tumor intracraniano. Isso importa porque a inexistência de negativa expressa da ANS está entre as condições examinadas pelo Supremo na ADI 7.265.

Então não adianta processar?

Adianta, mas o pedido precisa ser montado de outro jeito. Não se ganha sustentando que o rol é exemplificativo nem afirmando superioridade genérica da técnica. Ganha-se identificando o fundamento da recusa administrativa e demonstrando por que ele não se aplica àquele paciente, com dado anatômico ou clínico individualizado.

O que o relatório médico precisa dizer?

O que torna a técnica convencional insuficiente naquele caso concreto: proximidade de área eloquente, profundidade ou tamanho da lesão, cirurgia prévia com alteração das referências anatômicas, risco funcional específico. Indicação genérica não sustenta o pedido diante de uma decisão expressa de não incorporação.

Existe decisão judicial sobre neuronavegação contra plano de saúde?

Não localizamos, em fonte que tivéssemos efetivamente aberto e lido, decisão brasileira sobre esse recorte. Registramos a ausência em vez de preencher com citação não conferida.

Em resumo

A neuronavegação é uma das seis tecnologias que o art. 12 da RN 465/2021 cita pelo nome, e ela não está no Anexo I: a ANS afirma isso em parecer técnico. Mais do que isso, a incorporação foi analisada e recusada em duas propostas no ciclo de 2019 e 2020. Como a inexistência de negativa expressa da ANS é uma das condições examinadas pelo STF na ADI 7.265, este é o cenário mais difícil do cluster. O caminho que resta não é discutir taxatividade nem afirmar superioridade genérica: é enfrentar o fundamento da recusa administrativa e demonstrar por que ele não se aplica àquela anatomia.

Henrique Machado Advogado · OAB/RJ 252.553

Atua em Direito da Saúde Suplementar, com foco em reajustes de planos de saúde, cobertura de tratamentos e manutenção contratual, em B&M Advogados, Boechat e Machado Advogados, Niterói, Rio de Janeiro.

Horário de atendimento: segunda a sexta, das 8h às 20h.
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Equipe de Direito da Saúde Suplementar do escritório: Henrique Machado, advogado, OAB/RJ 252.553; Paulo Henrique Machado, advogado, OAB/RJ 58.450; Victor Boechat Rosa e Silva, advogado, OAB/RJ 206.210.

Conteúdo informativo, publicado em 2026. Não constitui orientação médica e não substitui a análise do contrato, do relatório médico e dos documentos do caso concreto. Fontes normativas: Lei 9.656/1998, arts. 10, VII, e 10, § 13; RN ANS 465/2021, art. 12; RN ANS 566/2022, art. 3º; RN ANS 623/2024, art. 14; pareceres técnicos e resumos executivos da ANS indicados no texto; STF, ADI 7.265/DF; Código de Processo Civil, art. 434.