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Cirurgia robótica · Atualizado em 2026

Cirurgia robótica nem sempre é a melhor opção: o que a evidência mostra

Por Henrique Machado, OAB/RJ 252.553 | Direito da Saúde Suplementar | Leitura de 15 minutos | Publicado em | Atualizado em

Quase todo material sobre cirurgia robótica compara a robótica com a cirurgia aberta, e nessa comparação ela ganha com folga. Só que esse não é o comparador relevante: o paciente de hoje escolhe entre robô e videolaparoscopia, e aí o quadro muda por completo. Em várias especialidades a via robótica é consistentemente mais demorada, em algumas não traz benefício clínico demonstrado, e o custo é maior em todas. Este artigo reúne o que a evidência publicada efetivamente mostra, com as fontes na mão, e o que isso significa para quem vai decidir, assinar um consentimento ou litigar.

Do que este artigo trata, e do que ele não trata

Este texto não diz que a cirurgia robótica é ruim, nem que ela não deva ser usada, nem que médicos indiquem tecnologia por interesse. Nada disso se sustenta, e afirmar qualquer dessas coisas seria desonesto.

O que ele faz é reunir o que a evidência publicada efetivamente mostra sobre em quais procedimentos a via robótica traz benefício demonstrado e em quais não traz, e o que decorre disso para quem vai decidir, assinar um consentimento ou litigar. Nenhum número aqui foi estimado: todos constam dos documentos citados.

O erro que distorce a conversa inteira

Quase todo material sobre cirurgia robótica compara a robótica com a cirurgia aberta. E, nessa comparação, ela ganha com folga: menos transfusão, menos complicações graves, menos tempo de internação. Isso é verdadeiro e está bem documentado.

Só que, na maioria dos procedimentos, esse não é o comparador relevante. O paciente que hoje discute robótica não está escolhendo entre robô e cirurgia aberta: está escolhendo entre robô e videolaparoscopia. E aí o quadro muda por completo.

165 revisões sistemáticas analisadas em uma única revisão guarda-chuva, publicada no BMJ Open em 2024

Essa revisão guarda-chuva, de Lai, Roxburgh, Boyd e Bouttell, publicada no BMJ Open em 2024, reuniu 165 revisões sistemáticas dos anos de 2017 a 2023. Ela é a melhor fotografia disponível do conjunto da evidência, e traz duas informações incômodas de uma vez.

A primeira é sobre tempo cirúrgico, e está detalhada adiante. A segunda é sobre a qualidade da própria literatura: avaliadas pelo instrumento AMSTAR-2, as 165 revisões incluídas foram consideradas de qualidade predominantemente baixa ou criticamente baixa, com falha principal no controle de viés. Conclusão literal dos autores: "dado o alto custo incremental da cirurgia assistida por robô e o maior tempo operatório, estudos econômicos futuros são necessários para determinar o uso ótimo da capacidade de cirurgia robótica".

Tempo cirúrgico: mais demorada, e não por curva de aprendizado

A ideia de que a cirurgia robótica é mais rápida é, na maior parte das especialidades, o inverso do que a literatura mostra.

Tempo operatório da via robótica comparada à videolaparoscopia
EspecialidadeAchado
Colorretal28 de 33 metanálises: tempo robótico significativamente maior
Gastrectomia17 de 18 revisões: tempo robótico maior
Hepatectomia14 de 18 revisões: tempo robótico maior
Duodenopancreatectomia10 de 11 estudos: tempo robótico maior que a cirurgia aberta
Histerectomia9 de 12 estudos: sem diferença significativa

Números concretos, de estudos individuais que foi possível conferir:

Diferenças medidas em estudos específicos
ProcedimentoDiferença de tempoFonte
Cirurgia de cólon +41,52 minutos na robótica Metanálise de Trastulli e outros, PLOS ONE, 2015, 12 estudos e 4.148 pacientes
Gastrectomia vertical 80 minutos contra 58 minutos, aumento de 28% Base MBSAQIP, 467.954 pacientes pareados, Surgical Endoscopy, 2025
Bypass gástrico 133 minutos contra 107 minutos, aumento de 18% Mesma base
Hérnia inguinal 75,5 minutos contra 40,5 minutos Ensaio clínico randomizado RIVAL, JAMA Surgery, 2020
Colecistectomia +10,23 minutos na robótica Metanálise de Singh e outros, 2024, 6 estudos e 1.013 pacientes
Histerectomia comparada à via vaginal +43 minutos na robótica Metanálise de Lenfant e outros, 2023, 24 estudos e mais de um milhão de pacientes

E não é curva de aprendizado

A explicação usual para o tempo maior é a inexperiência. O estudo bariátrico com 467.954 pacientes testou essa hipótese: ao longo de oito anos, com aumento de dez vezes no volume anual de casos robóticos, os tempos operatórios robóticos permaneceram significativamente maiores em cada um dos anos. O diferencial de tempo, ao menos nessa especialidade, é da técnica, e não do treinamento.

Onde a robótica não traz benefício demonstrado

Esta é a parte que o paciente raramente ouve, e que precisa ser dita com as fontes na mão.

Hérnia inguinal

O ensaio clínico randomizado RIVAL, publicado no JAMA Surgery em 2020, comparou as duas vias em 102 pacientes. Não houve diferença em dor no pré-operatório, em uma semana ou em trinta dias, nem em eventos de ferida operatória ou readmissões. O custo mediano foi de 3.258 dólares na robótica contra 1.421 na videolaparoscopia. Conclusão literal dos autores: "os resultados deste estudo não mostraram benefício clínico da abordagem robótica no reparo de hérnia inguinal simples em comparação com a abordagem laparoscópica. A abordagem robótica implicou custos mais altos e mais tempo operatório".

Colecistectomia

Metanálise de 2024, com 6 estudos e 1.013 pacientes, publicada no Translational Gastroenterology and Hepatology: a via robótica "não conseguiu provar qualquer vantagem clínica sobre a laparoscópica quanto a desfechos pós-operatórios, incluindo maior duração da operação; além disso, a colecistectomia laparoscópica foi mais custo-efetiva".

Hérnia ventral

Metanálise de quatro ensaios randomizados, com 337 pacientes, publicada em 2024: recorrência herniária sem diferença, com risco relativo de 1,05 e intervalo de confiança de 0,22 a 4,99; complicações de sítio cirúrgico sem diferença. Conclusão dos autores: o reparo robótico "não oferece qualquer superioridade entre as variáveis perioperatórias comparadas, e não é custo-efetivo quando comparado" à via laparoscópica.

Cirurgia bariátrica

Na base de 467.954 pacientes pareados, além do tempo maior, os grupos robóticos apresentaram maior incidência de reabertura, readmissão, reintervenção e visitas ao pronto-socorro em trinta dias, sem diferença significativa em mortalidade.

Histerectomia por doença benigna

Aqui existe algo raro nesta matéria: posicionamento expresso de sociedades médicas, e ele é antigo.

American Association of Gynecologic Laparoscopists · Position Statement
Journal of Minimally Invasive Gynecology, volume 20, número 1, janeiro e fevereiro de 2013

"A cirurgia laparoscópica assistida por robô não deve substituir os procedimentos laparoscópicos convencionais ou vaginais em mulheres que poderiam, de outro modo, ser submetidas a cirurgia laparoscópica convencional ou vaginal para doenças ginecológicas benignas."

O mesmo documento registra que as duas técnicas são "comparáveis quanto a desfechos perioperatórios", porém a robótica apresenta "tempos operatórios similares ou mais longos e custos associados mais altos", com custo variável adicional estimado entre 1.600 e 3.200 dólares por procedimento.

Tradução livre do original em inglês. O documento foi lido em cópia integral em PDF; a paginação exata deve ser conferida na revista antes de citação formal em peça.

No mesmo ano, em declaração de 14 de março de 2013, o então presidente do American College of Obstetricians and Gynecologists afirmou que "é importante separar o entusiasmo de marketing da realidade ao considerar a melhor abordagem cirúrgica para histerectomias", e que "a cirurgia robótica não é a única nem a melhor abordagem minimamente invasiva para histerectomia, nem é a mais econômica". Tradução livre. O texto foi lido em veículo especializado, com autor, cargo e data identificados; o documento original da entidade não pôde ser aberto.

A evidência confirma o posicionamento. A metanálise de Lenfant, de 2023, encontrou, na comparação entre robótica e videolaparoscopia em histerectomia, diferenças de 52 mililitros de sangue e de 0,14 dia de internação, cerca de três horas. São diferenças estatisticamente significativas e clinicamente desprezíveis. Contra a cirurgia aberta, sim, o ganho é real e relevante.

Onde a evidência é conflitante, e isso precisa ser dito

Em câncer de reto, a literatura não converge, e escolher um lado seria falsear o quadro.

Dois ensaios randomizados, dois resultados
EstudoResultado
ROLARR, JAMA, 2017, 471 pacientes Desfecho primário, conversão para cirurgia aberta: 12,2% na laparoscópica contra 8,1% na robótica, com razão de chances ajustada de 0,61 e intervalo de 0,31 a 1,21. Não significativo. Conclusão literal: a assistência robótica "não reduziu significativamente o risco de conversão para cirurgia aberta"
REAL, JAMA, 2025, 1.171 pacientes Recorrência locorregional em três anos: 1,6% na robótica contra 4,0% na laparoscópica. Sobrevida livre de doença em três anos: 87,2% contra 83,4%. Sobrevida global sem diferença significativa
Metanálise de 2025, 4 ensaios randomizados, 1.952 pacientes Conclusão literal: a cirurgia robótica "é uma opção tecnicamente mais refinada, mas não confere vantagens absolutas sobre a cirurgia laparoscópica"

Registro de método: nenhum dos três textos integrais pôde ser aberto na pesquisa que sustenta este artigo. Os dados vêm de resumos institucionais confiáveis, com autores, revista e ano identificados. Antes de citar esses números em peça, confira nos originais.

E a prostatectomia, que é a que está no rol

É onde a evidência mais favorece a robótica, e ainda assim com ressalvas que vale conhecer. O relatório oficial brasileiro que recomendou a incorporação registra reduções expressivas de transfusão sanguínea e de complicações graves, e melhores desfechos funcionais de continência e função erétil frente à videolaparoscopia. E registra também, no mesmo documento, o que segue.

As ressalvas do relatório que recomendou a incorporação

O Relatório de Recomendação nº 1030, de agosto de 2025, é favorável, e ainda assim registra quatro limites que precisam ser conhecidos por quem sustenta a tese, para não ser surpreendido por eles:

Traduzindo o ponto mais importante para quem é paciente: a robótica não demonstrou tratar melhor o câncer. O que ela demonstrou foi melhores desfechos de sangramento, de complicações graves e de função urinária e sexual. É um ganho real e é o que sustenta a indicação, mas é um ganho de outra natureza, e a diferença precisa estar clara antes de qualquer decisão.

O custo, com números brasileiros

Os custos da plataforma robótica, em valores brasileiros oficiais
ItemValor
Preço do sistemaR$ 6.373.943,33
Manutenção anualR$ 840.000,00
Instrumental por cirurgiaR$ 7.801,09

Valores constantes do Relatório de Recomendação nº 1030 da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, de agosto de 2025. São dados oficiais brasileiros, e não estimativas de mercado. Repare na terceira linha: o instrumental de cada cirurgia, sozinho, custa mais do que muitos procedimentos inteiros. Isso decorre de uma característica do sistema, que o próprio fabricante documenta: os instrumentos têm número limitado de usos. Em aviso técnico de julho de 2020, a fabricante confirmou que os instrumentos operavam sob um limite de dez usos e anunciou a ampliação desse número a partir do quarto trimestre daquele ano, sem especificar quais instrumentos nem o novo limite.

A comparação internacional confirma a direção. No ensaio RIVAL, o custo da hérnia inguinal robótica foi de cerca de 2,3 vezes o da laparoscópica. Na metanálise de cólon, o acréscimo foi de 2.420 dólares por procedimento. A agência britânica de avaliação de tecnologias, em documento de dezembro de 2024, concluiu que, em horizonte de um ano, a cirurgia robótica "provavelmente gera custo", e que só seria custo-efetiva se os pacientes ganhassem ao menos 0,1 ano de vida ajustado pela qualidade, na dependência de alta utilização e de redução do tempo operatório.

A questão dos honorários médicos, tratada com rigor

Circula com frequência a afirmação de que o cirurgião recebe mais para operar com robô. Este artigo não a repete, e a razão é simples: não foi possível confirmá-la em nenhuma fonte primária.

O que foi verificado, e o que não foi
AfirmaçãoSituação
A cirurgia robótica passou a integrar a Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos em 2026 Verificado. A edição de 2026 da tabela foi lançada pela Associação Médica Brasileira em 12/06/2026, durante o 4º Congresso Brasileiro de Medicina, e a inclusão da cirurgia robótica foi apontada como um dos destaques
O custo total do procedimento é maior na via robótica Verificado, com números oficiais brasileiros e internacionais
O honorário do cirurgião é maior na via robótica, e em qual percentual Não verificado. Os portes e valores da tabela não são de acesso público, e nenhuma fonte primária foi localizada
Existe posicionamento de conselho ou sociedade médica brasileira sobre remuneração diferenciada em robótica Não localizado

O que se pode registrar com segurança é o fato e a sua consequência: a remuneração da cirurgia robótica passou a ser tabelada em 2026, e os valores dessa tabela não são de acesso público. Isso, por si, limita a transparência do debate sobre incentivos, e é um dado, não uma insinuação. Quem quiser sustentar diferença de honorários precisa de fonte primária: o exemplar da tabela, a tabela da operadora ou os valores trazidos aos autos em um processo.

O que existe, e é verificável, sobre incentivos

Há um achado sobre a literatura científica, e ele deve ser lido pelo que é: uma associação estatística em nível populacional, que não autoriza imputar motivação a nenhum profissional.

Surgical Endoscopy · estudo de Parker e outros
Volume 39, páginas 1269 a 1274

Cruzando artigos sobre cirurgia bariátrica robótica publicados entre 2018 e 2022 com a base pública de pagamentos da indústria a médicos, o estudo encontrou que manuscritos favoráveis à robótica apresentaram divulgação de conflito de interesses significativamente pior, e que seus autores tinham remuneração significativamente maior da fabricante, além de maior aumento de remuneração no ano seguinte à publicação. Os pagamentos da fabricante a médicos passaram de 37 milhões para mais de 53 milhões de dólares anuais desde 2018.

Conclusão literal dos autores, em tradução livre: "nossos achados sugerem que os pagamentos da Intuitive influenciaram significativamente relatos favoráveis na literatura de bariátrica robótica". Trata-se de associação estatística, e não de demonstração de causalidade em casos individuais.

Há também um estudo mais antigo, de 2011, da Johns Hopkins, sobre 400 sites de hospitais norte-americanos: 41% descreviam cirurgia robótica, 73% usavam material fornecido pelo fabricante, 89% faziam alegações de superioridade clínica, 32% alegavam melhores resultados em câncer, e nenhum mencionava riscos.

O que isso significa juridicamente: o consentimento

Aqui está a consequência prática de tudo o que veio acima, e ela não passa por acusar ninguém.

Conselho Federal de Medicina · Resolução CFM nº 2.311/2022
Publicada no DOU de 28/03/2022, Seção I, p. 234

Art. 1º, § 2º: "Pacientes submetidos a tratamento por cirurgia robótica deverão ser esclarecidos sobre os riscos e benefícios do procedimento, sendo obrigatório a elaboração de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido."

Art. 3º: exige Registro de Qualificação de Especialista no conselho regional, na área cirúrgica relacionada. Art. 4º, § 2º, e Anexo 2: exigem, para habilitação, o mínimo de dez cirurgias robóticas sob supervisão de cirurgião-instrutor, e, para ser instrutor, o mínimo de cinquenta cirurgias robóticas como cirurgião principal.

Registre-se o que a norma não tem, porque também importa: ela não contém dispositivo sobre conflito de interesses, sobre dever de informar alternativas terapêuticas nem sobre indicações por especialidade. O que existe no Brasil é regulação de habilitação técnica, e não de indicação.

O art. 1º, § 2º, é o ponto. Se a via robótica, em determinado procedimento, não é superior à videolaparoscopia, mas é mais demorada e mais cara, um termo de consentimento que não informe isso é um consentimento deficitário. A norma exige esclarecimento sobre riscos e benefícios, e informar benefício que a literatura não sustenta, ou omitir a equivalência com a alternativa, não cumpre a exigência.

As três perguntas que todo paciente deveria fazer antes de assinar

  1. Qual é a alternativa? Não a cirurgia aberta, e sim a videolaparoscopia. O comparador correto muda a resposta.
  2. Qual é o ganho concreto no meu caso? Menos sangramento, menos dor, alta mais cedo, menor risco de qual desfecho específico. Ganho genérico não é resposta.
  3. Quanto tempo a mais leva, e o que isso implica de anestesia? Em várias especialidades a via robótica é mais demorada, e tempo de anestesia é um dado clínico.

Um cirurgião seguro da indicação responde as três sem dificuldade. A dificuldade em responder é, ela própria, uma informação.

Curva de aprendizado: um dado que quase ninguém pergunta

A norma brasileira exige, para habilitação, o mínimo de dez cirurgias robóticas sob supervisão. A literatura sobre proficiência descreve números bem maiores.

Casos necessários para proficiência, segundo revisão sobre cirurgia colorretal robótica
CenárioCasos
Maioria dos estudos, platô da curva15 a 20
Dissecções retais complexas33 a 45, com segundo platô entre 72 e 93
Casuísticas com procedimentos heterogêneos83 a 88
Mínimo regulatório brasileiro para habilitação10, sob supervisão

Duas ressalvas honestas. Primeira: os próprios autores dessa revisão advertem que contar casos é indicador pobre, e que "a complexidade do caso, mais do que o número de casos, pode ter o maior impacto sobre o tempo operatório". Segunda: os números acima são de cirurgia colorretal. Não foi possível confirmar número de casos para proficiência em prostatectomia robótica, e por isso ele não é informado aqui.

A distância entre o mínimo regulatório e as faixas da literatura é um fato verificável, e registrá-lo não imputa imperícia a ninguém. Perguntar ao cirurgião quantos procedimentos daquele tipo ele já realizou pela via robótica é uma pergunta legítima, e a resposta é informação relevante para o consentimento.

O que muda na estratégia jurídica

Consequências práticas para quem vai litigar
SituaçãoO que fazer
Pedido de prostatectomia robótica, indicação posterior a 1º/04/2026 Terreno favorável. Está no rol, com diretriz de critério único. Não é preciso discutir superioridade
Pedido de cirurgia robótica fora do rol, em especialidade com evidência frágil Avalie com franqueza antes de ajuizar. O requisito de ausência de alternativa adequada é difícil quando a videolaparoscopia é equivalente, e a operadora vai citar a mesma literatura deste artigo
Pedido fora do rol com razão anatômica ou clínica individualizada É o caminho. O relatório precisa dizer por que a alternativa coberta não serve àquele paciente
Paciente operado por via robótica sem esclarecimento adequado Discussão de consentimento, com base no art. 1º, § 2º, da Resolução CFM nº 2.311/2022. É matéria distinta da cobertura

Um último ponto, que é de método e vale para os dois lados. Quem litiga por cobertura de cirurgia robótica precisa conhecer esta literatura antes de encontrá-la na contestação. A operadora vai citar a recomendação inicial de não incorporação, vai citar a qualidade "moderada a baixa" da evidência e vai citar o ensaio ROLARR. Chegar preparado para isso é diferente de ser surpreendido por isso.

O argumento da evidência já apareceu no TJRJ, dos dois lados

O que este artigo descreve não fica na literatura médica. Na Apelação Cível 0281029-85.2020.8.19.0001, sobre cirurgia robótica de câncer no intestino, a Décima Quarta Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou a indenização e escreveu que "não há evidências científicas da maior eficácia do método robótico" (acórdão assinado em 06/11/2024). No Agravo de Instrumento 0084720-89.2023.8.19.0000, sobre câncer de próstata, a Décima Nona Câmara de Direito Privado fez o caminho inverso: manteve a cirurgia robótica e tratou a aprovação pela Anvisa em 2008 e a Resolução CFM 2.311/2022 como prova da eficácia (acórdão assinado em 05/04/2024).

A diferença entre os dois casos não foi a lei. Foi o que o processo tinha sobre aquele paciente. Quando o relatório médico explica por que a técnica robótica serve melhor a ele, a discussão sobre a média dos estudos perde força.

As sete decisões do TJRJ sobre cirurgia robótica no câncer, com o resultado de cada uma, estão reunidas aqui.

Veja neste outro artigo: Cirurgia robótica no câncer: 7 decisões do TJRJ

Para saber exatamente quais cirurgias robóticas têm cobertura obrigatória e quais não têm, o mapa por especialidade está aqui.

Veja neste outro artigo: Quais cirurgias robóticas o plano de saúde cobre

Se o seu caso é de câncer de próstata, o artigo específico traz o antes e o depois da inclusão no rol.

Veja neste outro artigo: Cirurgia robótica de próstata: o plano de saúde cobre?

Perguntas frequentes

A cirurgia robótica é melhor que a convencional?

Depende de qual convencional. Comparada à cirurgia aberta, sim, há vantagens documentadas em sangramento, complicações graves e internação. Comparada à videolaparoscopia, que é o comparador relevante na maioria dos casos, o benefício é modesto ou ausente em várias especialidades, e o tempo operatório costuma ser maior.

A cirurgia robótica é mais rápida?

Em geral, não. Em cirurgia colorretal, 28 de 33 metanálises encontraram tempo robótico significativamente maior; em gastrectomia, 17 de 18 revisões; em hepatectomia, 14 de 18. Em hérnia inguinal, o ensaio RIVAL mediu 75,5 minutos contra 40,5. A exceção é a histerectomia, em que a maioria dos estudos não encontrou diferença.

Em quais cirurgias a robótica não traz benefício demonstrado?

Pelos estudos citados neste artigo: hérnia inguinal, colecistectomia, hérnia ventral e cirurgia bariátrica, todas com ausência de vantagem clínica frente à videolaparoscopia e com custo e tempo maiores. Em histerectomia por doença benigna, as diferenças encontradas foram estatisticamente significativas e clinicamente desprezíveis.

É verdade que o médico ganha mais para operar com robô?

Não foi possível confirmar isso em fonte primária, e por isso este artigo não afirma. O que se verificou é que a cirurgia robótica passou a integrar a tabela de honorários da Associação Médica Brasileira em junho de 2026, e que os valores dessa tabela não são de acesso público. Quem quiser sustentar diferença de honorários precisa do documento.

Então a robótica é marketing?

Não. Há ganho real e documentado em várias situações, e em prostatectomia ele foi suficiente para justificar a incorporação ao rol. O que a evidência não sustenta é a superioridade generalizada, em qualquer procedimento, contra qualquer alternativa. A pergunta correta é sempre sobre o procedimento específico e o paciente específico.

O que devo perguntar ao meu cirurgião?

Três coisas. Qual é a alternativa, considerando a videolaparoscopia e não a cirurgia aberta. Qual é o ganho concreto no meu caso, com o desfecho específico nomeado. E quanto tempo a mais leva, e o que isso implica de tempo de anestesia. Vale perguntar também quantos procedimentos daquele tipo ele já realizou pela via robótica.

Se a robótica não for superior, o plano pode negar?

Fora da prostatectomia radical em câncer localizado ou localmente avançado, a cirurgia robótica não tem cobertura obrigatória, e a discussão passa pelos requisitos de cobertura fora do rol. O requisito da ausência de alternativa terapêutica adequada é justamente onde a equivalência com a videolaparoscopia pesa contra o pedido, e é preciso saber disso antes de litigar.

Fui operado por robô sem que me explicassem isso. Tenho algum direito?

A Resolução CFM nº 2.311/2022 exige, no art. 1º, § 2º, que o paciente submetido a cirurgia robótica seja esclarecido sobre riscos e benefícios, com termo de consentimento livre e esclarecido obrigatório. Consentimento que atribui à técnica benefício que a literatura não sustenta, ou que omite a equivalência com a alternativa, é discussão jurídica própria, distinta da de cobertura, e depende da análise dos documentos do caso.

Em resumo

A cirurgia robótica é superior à cirurgia aberta em desfechos como transfusão, complicações graves e tempo de internação, e isso está bem documentado. O comparador relevante hoje, porém, é a videolaparoscopia, e nessa comparação a evidência é bem mais modesta. A via robótica é consistentemente mais demorada em cirurgia colorretal, gastrectomia, hepatectomia, bariátrica, colecistectomia e hérnia inguinal, e o estudo bariátrico com 467.954 pacientes mostrou que isso não se explica por curva de aprendizado. Em hérnia inguinal, colecistectomia, hérnia ventral e cirurgia bariátrica, ensaios e metanálises não encontraram benefício clínico frente à videolaparoscopia. Em histerectomia por doença benigna, duas entidades médicas norte-americanas registraram, desde 2013, que a robótica não deve substituir a laparoscopia ou a via vaginal. Em câncer de reto a evidência é conflitante. Em prostatectomia é onde ela mais favorece a robótica, e mesmo ali o relatório oficial brasileiro registra qualidade moderada a baixa e ausência de superioridade oncológica. O custo é maior e está documentado com números brasileiros. Sobre honorários médicos não há fonte primária pública, e este artigo não afirma o que não pôde verificar.

Henrique Machado Advogado · OAB/RJ 252.553

Atua em Direito da Saúde Suplementar, com foco em reajustes de planos de saúde, cobertura de tratamentos e manutenção contratual, em B&M Advogados, Boechat e Machado Advogados, Niterói, Rio de Janeiro.

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Conteúdo informativo, publicado em 2026. Não constitui orientação médica e não substitui a análise do contrato, do relatório médico e dos documentos do caso concreto. Fontes normativas: RN ANS 465/2021, art. 12; RN ANS 654/2025 e Diretriz de Utilização nº 173; Resolução CFM nº 2.311/2022. Fontes técnicas: Relatórios CONITEC nº 555/2025 e nº 1030/2025; revisões sistemáticas e ensaios clínicos identificados no corpo do texto.